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Quinta-feira, Outubro 21, 2004



"OMO" PARA PREFEITO

A campanha eleitoral para prefeito de SP reproduz o mesmo mecanismo que leva
as pessoas a responderem "Omo" para a questão: "Quem lava mais branco?".
Um candidato é promovido como o melhor pelos dois maiores jornais paulistas, e
sua adversária é desqualificada sistematicamente

"Omo lava mais branco. Omo lava mais branco. Omo lava mais branco." "Quem
lava mais branco?" Quando a resposta é avassaladora a favor de "Omo", o
resultado não expressa a opinião do consumidor, mas a efetividade da
campanha de publicidade. É isso que mede a pesquisa, que instala um jogo de
bumerangue entre os produtores do "consenso fabricado" - na expressão de
Noam Chomsky - e as vítimas passivas, que reagem como cachorrinhos da
experiência de Pavlov diante dos estímulos a que os submetem (vejam-se os
eloqüentes relatórios da Mídias Watch, significativamente desconhecidos
pelos jornais que exercem alegremente o monopólio privado da mídia).

A campanha eleitoral para prefeito de São Paulo reproduz um mecanismo
similar. Um candidato é promovido como o melhor pelos dois maiores jornais
paulistas - valendo-se de um monopólio privado da mídia similar ao da
Venezuela - e sua adversária é desqualificada sistematicamente. As pesquisas
testam a efetividade da campanha, que devolve aos produtores monopólicos da
opinião pública o resultado satisfatório de sua imposição totalitária.

Não importa se o candidato é um aventureiro, que já foi candidato a tudo,
que abandonou os cargos que ocupou em busca de mais poder - a começar por
sua carreira de líder estudantil, que culminou com sua eleição para a
presidência da UNE (União Nacional dos Estudantes), onde decretou greve
geral no golpe e abandonou o país em seguida, para só retornar quando os
riscos maiores da resistência tinham acabado. Não importa se deixou seus
mandatos no Legislativo para exercer cargos de poder no Executivo quando foi
eleito - lembram-se de quem exerceu o mandato de senador que ele conquistou,
para ressaltar os riscos de se ter um prefeito eleito como vice, sob enormes
suspeitas de corrupção?

Não importa se São Paulo nunca teve um conjunto de políticas sociais tão
distribuidoras de renda, o que interessa é atacar o aumento dos impostos que
tornou possível essas políticas - sistematicamente desconhecidas pelos dois
jornais -, acirrando a consciência egoísta da classe média, que assim não
lutará por uma ordem social mais justa, mas aceitará a política truculenta
de segurança pública do governo do Estado, que ameaça estender suas garras
sobre a prefeitura.

Não importam as incongruências de dizer que vai diminuir os impostos, mas
vai manter as políticas sociais, financiadas por esses impostos. Mente
quando diz que vai baixar os impostos. Ou mente quando diz que vai manter as
políticas - agora já confessa que vai parar com os CEUs (Centros
Educacionais Unificados). Ou mente as duas vezes, porque nem vai baixar os
impostos, nem vai manter as políticas sociais.

O que interessa é a promoção do candidato favorito da Avenida Paulista, dos
bancos, dos sentimentos conservadores da classe média e da burguesia
paulistana - que deixaram de ser malufistas para ser tucanos.

E se algo não funcionar, aí estão as vastas páginas desses jornais, onde não
há uma única voz dissonante, entre cobertura e colunistas. Parece que não
existe mais direita, Jorge Bornhausen, Chalita, Alckmin, tucanos, FHC,
capital especulativo, sistema bancário. Existe apenas o antipetismo, que
amalgama diferentes vozes em único coro: derrotar o PT, onde quer que seja -
em Porto Alegre ou em Campinas, em São Paulo ou em Belém.

A imprensa privada paulista revela assim como tão pouco se democratizou no
Brasil com o fim da ditadura. Como continuam nas mãos de algumas famílias a
propriedade das grandes empresas de comunicação, que tentam fazer passar
suas opiniões e interesses como os da "liberdade e da democracia", gritando
em uníssono quando o governo tenta regulamentar minimamente atividades que
recebem subvenções, isenções e perdões de dívidas dos impostos pagos pela
mesma população vitimizada pelas ações monopólicas desses órgãos.

Se Omo ganhar, será uma vitória da ditadura monopólica da mídia privada, que
terá do que se regozijar. Mas, se como na Venezuela o povo votar contra essa
imposição, esse consenso fabricado, aí sim terão ganho a democracia, a
distribuição de renda e a possibilidade de participação popular. E terá sido
derrotado o Brasil que concentra renda, exclui direitos e condena ao
massacre os jovens e crianças pobres das periferias.



Emir Sader, professor da Universidade de São Paulo (USP) e da Universidade
do Estado do Rio de Janeiro (Uerj), é coordenador do Laboratório de
Políticas Públicas da Uerj e autor, entre outros, de "A vingança da História".


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